Páginas

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Passagem para

existe um trem que nunca pára 

muitos embarcam 

todos embarcam nele 

alguns nunca descem 

nesse trem todos olham sempre pra frente 

todos os corações batem forte 

alguns gritam 

outros choram 

a maioria espera com os braços abertos 

ou com as mãos estendidas à sua frente 

muitos olham seus relógios 

batem um dos pés no chão 

respiram fundo e suspiram 

a maioria olha pela janela com as cabeças e o corpo pra fora acabei de subir nesse trem 

na verdade, já estive nele muitas vezes 

nunca soube o destino final 

ninguém senta ou convida alguém a fazer isso 

mães seguram os filhos no colo 

namorados arrumam a roupa 

dão uma olhadinha no reflexo 

depois de um tempo vejo um mulher cair desmaiada 

cansaço 

alguns dias depois, um jovem vira-se 

sobe num banco 

abre a janela 

sinto um frescor que entra com o vento 

ele passa o corpo pelo espaço 

e salta 

subo no banco também 

coloco a cabeça para fora 

não consigo ver o começo e nem o fim do trem 

deito no banco e durmo 

acordo e decido seguir 

esse trem se chama horizonte 

pra mim ele tem cheiro da tua pele 

tem a cor da tua pele muito branca com alguns pontinhos marrons perdidos tem o som da tua risada repentina 

teu cabelo comprido e liso 

tem a cor e a luz da noite que dirigimos juntos ouvindo música alta tem o calor da tua mão antes de eu dormir 

eu sei que nunca vou chegar 

cansei de escrever 

mas nunca vou cansar de esperar 

e mesmo cansado vou continuar esperando

atravesso a porta que está na frente e entro no próximo vagão há mais gente nesse 

não olho na cara de ninguém 

não me importo 

tropeço no pé de alguém 

vejo um guri sentado desenhando 

saudades, pai 

está escrito 

ando alguns passo à frente 

atravesso a próxima porta 

nesse vagão sinto o cheiro da tua roupa suada o som dos teus passos chegando em casa 

o som da chave caindo no balcão 

corro pra próxima porta 

empurro as pessoas para passar 

esse vagão está mais lotado que o anterior 

forço a próxima porta 

há algo do outro lado a impedindo de abrir 

afinal, consigo passar 

nesse vagão há auto falantes no teto 

tua voz sai por eles 

escuto você 

mas não entendo o que diz 

subo no banco e coloco o ouvido na caixa preta você está dizendo que me ama 

eu fecho os olhos 

depois olho a caixa e a beijo 

pulo por cima dos bancos e chego na próxima porta abro-a com muita facilidade 

este vagão agora está vazio 

sinto uma pressão nos ouvidos 

um assovio agudo 

não há bancos ou barras para se segurar 

sinto os solavancos do trem e caio de um lado para o outro chego até a parede 

tento abrir a janela 

estão todas lacradas 

olho o reflexo e vejo nuvens de tempestade 

depois vejo sombras escuras 

animais ferozes 

postes em ruas mal iluminadas 

facas afiadas 

fios desencapados 

escadas virando 

pedras na calçada 

roupas rasgadas 

contas bancárias negativas

homens bravos de terno 

pontes altas 

cordas em laço 

formigas e mosquitos 

pneus furados 

tanques de gasolina vazios 

carros em alta velocidade 

lâmpadas queimadas 

casas sujas 

vidro quebrado no chão escuro da sala 

arranho as janelas 

bato a cabeça no vidro várias vezes 

me abaixo e grito com toda força 

lembro da porta 

arranco, chego nela e abro rápido 

neste vagão vejo muitos corpos amontoados cobrindo o outro lado do vagão um homem caminha na direção 

olho seu rosto e levo um susto 

ele tem um sorriso que cobre metade do rosto 

ele pergunta que horas são 

e eu digo teu nome 

ele puxa uma alavanca do teto e por um alçapão no chão os corpos caem ele mostra a próxima porta 

entro no próximo vagão 

tiro os tênis 

sento em uma das camas 

deito 

encosto a cara num travesseiro de ferro 

choro e escuto as lágrimas pingarem e escorrerem pelo metal 

levanto 

coloco os tênis 

arrumo o cabelo 

caminho para a próxima porta e a atravesso 

este vagão está quente 

deve ser um dos últimos 

sento e uma mulher me traz uma bandeja com comida 

olho e vejo teu bolo ruim e mal crescido que você fez no sábado e que a Ana Luiza foi nos visitar 

sinto uma agulha no coração 

deito o rosto sobre o prato 

a mulher volta e diz 

três dias são o limite 

levante e siga 

entro no próximo vagão 

está um pouco mais quente

uma festa acontece 

rostos não existem 

apenas bocas com lábios enormes e línguas compridas 

corro até alguém e beijo com uma fome ardente 

tem gosto amargo e um cheiro venenoso 

sinto pequenos alfinetes cortarem minha boca 

a fome aumenta muito mais 

grito alto e empurro a pessoa 

viro e sigo para o outro lado 

a porta de saída está atrás de um telão com um setlist de músicas 

coloco a música do snoop dog que ouvimos no carro na noite em que nós fizemos sexo pela primeira vez 

minha virilha e meu ventre ardem 

olho pra baixo e estou pegando fogo 

minha pele queima e a dor me faz gemer alto 

finalmente a porta se abre 

eu viro um balde cheio de gelo e água na cabeça 

atravesso para o próximo vagão 

uma velha está sentada em frente a uma mesa que balança com o movimento do trem ela mostra a cadeira vazia 

eu sento 

ela faz carinho no meu rosto 

eu fecho os olhos 

e deito a cabeça nas mãos dela 

a cadeira é macia 

o cheiro de sopa no ar é inebriante 

pego a colher e começo a comer do prato que está na mesa 

sopa de massa com bastante caldo 

o caldo não é nem tão espesso e nem muito líquido 

tem pequenos pedaços de batata 

ao lado do prato tem alguns potes com pão fresco, mandioca salgada e mole e queijo ralado a mulher me olha séria e pergunta 

que horas são? 

eu digo teu nome 

meu estômago revira 

eu viro para o lado e vomito no balde ao lado da mesa 

a velha me alcança um copo com água 

pego, enxáguo a boca 

agradeço 

levanto e vou para a porta do próximo vagão 

antes de atravessar olho para trás 

outra pessoa está sentando na cadeira para comer costelinha com limão 

neste vagão as pessoas esperam em pé impacientes 

batem o pé 

seguram as crianças 

alguns estão com os braços abertos e as mãos estendidas 

há forcas descendo do teto e em volta de seus pescoços

eu encontro uma vazia 

coloco em meu pescoço e aguardo 

um apito soa 

a moça na minha frente desamarra sua corda 

pega a bolsa e sai pela porta mais a frente 

depois de mais três que saem 

chega minha vez 

desamarro minha corda 

e vou para o próximo vagão 

entro 

sento 

encosto a cabeça no vidro e olho a chuva que cai lá fora 

as árvores passam 

vejo um cachorro todo molhado correndo para longe 

agora o trem passa por um um jardim 

as crianças estão brincando 

usam capas de chuva 

correm umas atrás das outras 

e pulam em poças de água 

uma perde a bota de chuva 

se desequilibra 

e cai com tudo no barro 

vejo rapidamente quando ela levanta o rosto cheio de lama e ri com os olhos fechados e a boca toda aberta 

o homem sentado à minha frente vira-se para mim 

e pergunta que horas são 

digo teu nome, levanto e saio pela porta para o próximo vagão 

neste vagão eu vejo pequenas fogueiras em latas de metal 

eu pego junto do chão as flores secas que tu me deu no dia da minha formatura jogo dentro de uma lata em chamas 

pego as cortinas da janela da cozinha da nossa casa 

que eu vou morrer sem conseguir terminar de pagar 

jogo dentro das chamas 

e aspiro a fumaça preta que começa a subir do fogo 

caio e desmaio 

acordo e fico no chão olhando o fogo queimar 

levanto e vou até a porta à frente 

neste vagão há um periscópio submarino 

desço ele até a altura dos meus olhos 

olho pelas lentes 

consigo ver o horizonte 

abraço o ar 

o trem balança nos trilhos e segue em frente um pouco mais devagar agora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário