existe um trem que nunca pára
muitos embarcam
todos embarcam nele
alguns nunca descem
nesse trem todos olham sempre pra frente
todos os corações batem forte
alguns gritam
outros choram
a maioria espera com os braços abertos
ou com as mãos estendidas à sua frente
muitos olham seus relógios
batem um dos pés no chão
respiram fundo e suspiram
a maioria olha pela janela com as cabeças e o corpo pra fora acabei de subir nesse trem
na verdade, já estive nele muitas vezes
nunca soube o destino final
ninguém senta ou convida alguém a fazer isso
mães seguram os filhos no colo
namorados arrumam a roupa
dão uma olhadinha no reflexo
depois de um tempo vejo um mulher cair desmaiada
cansaço
alguns dias depois, um jovem vira-se
sobe num banco
abre a janela
sinto um frescor que entra com o vento
ele passa o corpo pelo espaço
e salta
subo no banco também
coloco a cabeça para fora
não consigo ver o começo e nem o fim do trem
deito no banco e durmo
acordo e decido seguir
esse trem se chama horizonte
pra mim ele tem cheiro da tua pele
tem a cor da tua pele muito branca com alguns pontinhos marrons perdidos tem o som da tua risada repentina
teu cabelo comprido e liso
tem a cor e a luz da noite que dirigimos juntos ouvindo música alta tem o calor da tua mão antes de eu dormir
eu sei que nunca vou chegar
cansei de escrever
mas nunca vou cansar de esperar
e mesmo cansado vou continuar esperando
atravesso a porta que está na frente e entro no próximo vagão há mais gente nesse
não olho na cara de ninguém
não me importo
tropeço no pé de alguém
vejo um guri sentado desenhando
saudades, pai
está escrito
ando alguns passo à frente
atravesso a próxima porta
nesse vagão sinto o cheiro da tua roupa suada o som dos teus passos chegando em casa
o som da chave caindo no balcão
corro pra próxima porta
empurro as pessoas para passar
esse vagão está mais lotado que o anterior
forço a próxima porta
há algo do outro lado a impedindo de abrir
afinal, consigo passar
nesse vagão há auto falantes no teto
tua voz sai por eles
escuto você
mas não entendo o que diz
subo no banco e coloco o ouvido na caixa preta você está dizendo que me ama
eu fecho os olhos
depois olho a caixa e a beijo
pulo por cima dos bancos e chego na próxima porta abro-a com muita facilidade
este vagão agora está vazio
sinto uma pressão nos ouvidos
um assovio agudo
não há bancos ou barras para se segurar
sinto os solavancos do trem e caio de um lado para o outro chego até a parede
tento abrir a janela
estão todas lacradas
olho o reflexo e vejo nuvens de tempestade
depois vejo sombras escuras
animais ferozes
postes em ruas mal iluminadas
facas afiadas
fios desencapados
escadas virando
pedras na calçada
roupas rasgadas
contas bancárias negativas
homens bravos de terno
pontes altas
cordas em laço
formigas e mosquitos
pneus furados
tanques de gasolina vazios
carros em alta velocidade
lâmpadas queimadas
casas sujas
vidro quebrado no chão escuro da sala
arranho as janelas
bato a cabeça no vidro várias vezes
me abaixo e grito com toda força
lembro da porta
arranco, chego nela e abro rápido
neste vagão vejo muitos corpos amontoados cobrindo o outro lado do vagão um homem caminha na direção
olho seu rosto e levo um susto
ele tem um sorriso que cobre metade do rosto
ele pergunta que horas são
e eu digo teu nome
ele puxa uma alavanca do teto e por um alçapão no chão os corpos caem ele mostra a próxima porta
entro no próximo vagão
tiro os tênis
sento em uma das camas
deito
encosto a cara num travesseiro de ferro
choro e escuto as lágrimas pingarem e escorrerem pelo metal
levanto
coloco os tênis
arrumo o cabelo
caminho para a próxima porta e a atravesso
este vagão está quente
deve ser um dos últimos
sento e uma mulher me traz uma bandeja com comida
olho e vejo teu bolo ruim e mal crescido que você fez no sábado e que a Ana Luiza foi nos visitar
sinto uma agulha no coração
deito o rosto sobre o prato
a mulher volta e diz
três dias são o limite
levante e siga
entro no próximo vagão
está um pouco mais quente
uma festa acontece
rostos não existem
apenas bocas com lábios enormes e línguas compridas
corro até alguém e beijo com uma fome ardente
tem gosto amargo e um cheiro venenoso
sinto pequenos alfinetes cortarem minha boca
a fome aumenta muito mais
grito alto e empurro a pessoa
viro e sigo para o outro lado
a porta de saída está atrás de um telão com um setlist de músicas
coloco a música do snoop dog que ouvimos no carro na noite em que nós fizemos sexo pela primeira vez
minha virilha e meu ventre ardem
olho pra baixo e estou pegando fogo
minha pele queima e a dor me faz gemer alto
finalmente a porta se abre
eu viro um balde cheio de gelo e água na cabeça
atravesso para o próximo vagão
uma velha está sentada em frente a uma mesa que balança com o movimento do trem ela mostra a cadeira vazia
eu sento
ela faz carinho no meu rosto
eu fecho os olhos
e deito a cabeça nas mãos dela
a cadeira é macia
o cheiro de sopa no ar é inebriante
pego a colher e começo a comer do prato que está na mesa
sopa de massa com bastante caldo
o caldo não é nem tão espesso e nem muito líquido
tem pequenos pedaços de batata
ao lado do prato tem alguns potes com pão fresco, mandioca salgada e mole e queijo ralado a mulher me olha séria e pergunta
que horas são?
eu digo teu nome
meu estômago revira
eu viro para o lado e vomito no balde ao lado da mesa
a velha me alcança um copo com água
pego, enxáguo a boca
agradeço
levanto e vou para a porta do próximo vagão
antes de atravessar olho para trás
outra pessoa está sentando na cadeira para comer costelinha com limão
neste vagão as pessoas esperam em pé impacientes
batem o pé
seguram as crianças
alguns estão com os braços abertos e as mãos estendidas
há forcas descendo do teto e em volta de seus pescoços
eu encontro uma vazia
coloco em meu pescoço e aguardo
um apito soa
a moça na minha frente desamarra sua corda
pega a bolsa e sai pela porta mais a frente
depois de mais três que saem
chega minha vez
desamarro minha corda
e vou para o próximo vagão
entro
sento
encosto a cabeça no vidro e olho a chuva que cai lá fora
as árvores passam
vejo um cachorro todo molhado correndo para longe
agora o trem passa por um um jardim
as crianças estão brincando
usam capas de chuva
correm umas atrás das outras
e pulam em poças de água
uma perde a bota de chuva
se desequilibra
e cai com tudo no barro
vejo rapidamente quando ela levanta o rosto cheio de lama e ri com os olhos fechados e a boca toda aberta
o homem sentado à minha frente vira-se para mim
e pergunta que horas são
digo teu nome, levanto e saio pela porta para o próximo vagão
neste vagão eu vejo pequenas fogueiras em latas de metal
eu pego junto do chão as flores secas que tu me deu no dia da minha formatura jogo dentro de uma lata em chamas
pego as cortinas da janela da cozinha da nossa casa
que eu vou morrer sem conseguir terminar de pagar
jogo dentro das chamas
e aspiro a fumaça preta que começa a subir do fogo
caio e desmaio
acordo e fico no chão olhando o fogo queimar
levanto e vou até a porta à frente
neste vagão há um periscópio submarino
desço ele até a altura dos meus olhos
olho pelas lentes
consigo ver o horizonte
abraço o ar
o trem balança nos trilhos e segue em frente um pouco mais devagar agora.